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"Esta geração vai apanhar destroços de um Brexit que não queria"

08-02-2019 - Susana Salvador

Lara Spirit é um dos rostos de um grupo de jovens que faz lóbi no Reino Unido para a realização de um segundo referendo.

Lara Spirit tem 22 anos e fez um pausa no último ano do curso de Política e Relações Internacionais na Universidade de Cambridge para se dedicar a 100% à campanha Our Future, Our Choice (o nosso futuro, a nossa escolha). Liderada por jovens, a campanha nasceu há um ano e defende a realização de um novo referendo sobre o Brexit. Referendo é contudo uma palavra que Lara, copresidente, não usa na conversa com o DN, optando sempre por falar num "people's vote", isto é, "voto do povo".

Ainda há tempo para travar o Brexit?
Sim, ainda há tempo para termos um novo voto do povo, porque na realidade não houve qualquer progresso na direção de um verdadeiro acordo. Só tem havido insistência naquilo que o Parlamento britânico não quer e está a tornar-se mais claro que não há qualquer forma de a primeira-ministra conseguir um acordo antes de 29 de março. Ainda há dias, [o chefe da diplomacia] Jeremy Hunt disse que eles podem precisar de uma extensão do artigo 50, depois de o Parlamento ter rejeitado isso mesmo e o governo ter lutado com toda a sua força contra isso. Vir agora admitir que podem precisar de um adiamento é algo humilhante, mas era previsível, tendo em conta toda a incompetência. E são boas notícias para nós, porque, à medida que as opções vão saindo da mesa, aproximamo-nos mais da opção de um novo voto do povo.

E não teme o contrário, que possa levar a um Brexit sem saída?
Acho que um Brexit sem saída é uma possibilidade muito séria e uma possibilidade que o governo tem mantido por cima das nossas cabeças para tentar fazer passar o seu acordo. Acho que é uma escolha prejudicial dizer às pessoas que ou têm o acordo da Theresa May ou não terão acordo, porque sabemos que um novo voto do povo é uma grande possibilidade. Mas um Brexit sem acordo é uma desgraça e isso tem assustado muitos deputados, fazendo-os pensar que a única outra hipótese é apoiar um acordo que não impede que o Brexit se prolongue para sempre, trazendo mais e mais incerteza. Um Brexit sem acordo é uma desgraça completa e temos de ser realistas diante do facto de que nem o Reino Unido nem a União Europeia querem um. E tenho esperança de que a única maneira de nós evitarmos um Brexit assim é com um voto do povo.

Mas, sem o apoio do Parlamento para esse novo voto, que hipótese têm?
Temos noção de que ainda não temos o apoio do Parlamento, mas os deputados que agora veem essa opção com terror e ansiedade terão de enfrentar uma escolha muito difícil nos próximos meses. Quando o acordo da Theresa May morrer e descobrirmos finalmente que é impossível passá-lo pelos deputados, estarão eles dispostos a fazer os seus eleitores passar por um Brexit sem acordo? Achamos que a resposta é não. Se não estiverem, então terão de encontrar uma forma de avançar e não vemos razão para que não recuem nessa posição e eventualmente apoiem um voto do povo.

Os críticos de um novo referendo dizem que as pessoas já votaram e que tem de se respeitar essa decisão. Qual é a vossa resposta?
O Reino Unido votou para sair e claro que acordei no dia seguinte ao referendo a querer que o nosso governo tivesse sucesso nesses planos, porque isso é o que a democracia significa. Mas acho que este governo tentou, apesar de ter feito graves erros, fazer do Brexit uma opção para este país, mas falhou de forma visível. Acho que, diante desse falhanço, muitas pessoas têm direito a mudar de opinião. Muitas pessoas têm direito a olhar para o facto de o acordo de Brexit nos ir deixar mais pobres e para o facto de que prejudica o futuro da juventude e têm direito a mudar de ideias. Têm o direito de voltar a olhar para a União Europeia e querer ver esta situação resolvida de uma vez por todas e que têm direito a voltar a dizê-lo.

Tem 22 anos, por isso tinha idade suficiente para votar no referendo de 2016. Participou nessa campanha ou só depois do resultado é que se envolveu com este tema?
Fiz um bocadinho de campanha na universidade em Cambridge, mas não estive diretamente envolvida na campanha. E acordei muito triste com o resultado.

Acha que os jovens não se envolveram o suficiente?
Acho que houve muito deixa andar, mas não apenas dos jovens. Muitas pessoas na campanha do   remain  [ficar] achavam que estava ganho, porque tínhamos a certeza de que o Reino Unido estava mais seguro e era mais próspero dentro da União Europeia. E que o voto refletiria isso. Claro que estávamos muito enganados. Dizemos vezes sem conta que os jovens devem ter um papel massivo caso haja um novo voto do povo. E acho que o farão. Acho que as probabilidades de os jovens estarem mais envolvidos no processo e de serem valorizados nunca foi mais premente e importante do que sobre o Brexit. E expusemos uma espécie de divisão geracional que os nossos políticos vão ter de reconhecer se conseguirmos uma nova votação.

No final, são os jovens os mais afetados pelo Brexit...
Nunca diríamos que o voto dos jovens vale mais do que o de todas as outras pessoas, não pensamos isso, mas achamos que deve ser dada atenção ao que os jovens estão a dizer neste debate, já que o Brexit vai afetá-los mais do que a qualquer outra pessoa e durante mais tempo. A nossa geração vai apanhar os destroços de um Brexit que não queria, algo sobre o qual os políticos deviam ter mais consciência. Porque dentro de 20 anos é a nossa geração que vai estar a conduzir o carro numa situação em que vamos querer estar na União Europeia ao lado dos nossos amigos a enfrentar os grandes problemas do nosso mundo.

Como é que se sentiria se conseguissem um novo voto e o Brexit voltasse a ganhar?
Claro que na nossa campanha ficaríamos felizes por um novo voto, mas faríamos campanha por ficar na União Europeia. Contudo, sabemos que existe essa possibilidade de o Brexit voltar a ganhar. Dito isto, a opção do   remain  é atualmente a opção mais popular. Acho que teria de haver uma campanha diferente, mais entusiástica, com mais jovens. E penso que tudo aponta para que seria isso que iria acontecer se houvesse outro voto. Claro que aceitaríamos um voto para sair, se esse fosse o resultado, e tentaríamos fazer o melhor com isso.

Se a Theresa May acordasse e dissesse "acabou, já não há Brexit", o que achariam?
Seria melhor do que um Brexit sem acordo, mas acho que é imprescindível termos um voto para decidir. No final do dia, não podemos apenas revogar o artigo 50 e esquecer. Acho que isso iria prejudicar seriamente a nossa democracia, como a conhecemos. Daí que acredite seriamente que, caso essa decisão seja revertida, então isso terá de passar por um novo referendo e por as pessoas dizerem que é isso que querem. Que é a decisão final.

Criticou o governo de May. E em relação ao papel da oposição e de Jeremy Corbyn?
É vergonhoso, completamente vergonhoso. É ignorar o dever que têm para com os membros do partido e para com os jovens que depositaram a sua confiança em Corbyn e que estão muito envolvidos neste assunto e sentem que estão a ser completamente negligenciados. Acho que ainda há tempo para ele fazer o que é correto. É embaraçoso e hipócrita num partido que defende a democracia interna, que defende o papel dos jovens. Alguns dos nossos membros, que são ativistas, estão muito desapontados com a posição.

Se o Brexit acontecer, acha que haverá pessoas a começar uma campanha para voltar a entrar na UE?
Haverá sempre pessoas com uma visão forte e vibrante pró-europeia no Reino Unido. Vai ser sempre o caso. Mas acho que não vamos continuar a ver muitas pessoas a lutarem por isso da mesma maneira. Neste momento, é uma grande prioridade ter um voto do povo e é por isso que há tantas pessoas tão preocupadas em garantir que isso aconteça.

Fonte: DN.pt

 

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