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João Lourenço traz “novo ciclo” a Portugal: uma certeza e uma dúvida

23-11-2018 - Ângela Silva

João Lourenço iniciou ontem, quinta-feira, a sua primeira visita de Estado a Portugal e há uma certeza quanto ao espírito das duas partes: enterrado o “irritante” (lembram-se?), há uma vontade genuína de que a visita corra bem. A dúvida é o que é que isso significa. Com Angola numa nova fase de abertura ao mundo em busca de investidores de peso, que papel para uma pequena economia como a nossa. O ministro dos Negócios Estrangeiros português diz que a oportunidade para Portugal é vastíssima. Desde que se mude o chip “obsoleto” com que nos últimos anos olhámos Angola. Pelo sim, pelo não, Marcelo Rebelo de Sousa quer ir quanto antes a Luanda. Carregado de afeto.

Não foi por acaso que Marcelo Rebelo de Sousa se antecipou à chegada de João Lourenço a Portugal com uma entrevista à Rádio Nacional de Angola onde se fez convidado para ir quanto antes a Luanda. “Marquem a data que eu vou já”, afirmou o Presidente português, e a formalização do convite do seu homólogo angolano deverá ocorrer durante a visita de Estado que Lourenço inicia esta quinta-feira a Portugal.

Marcelo tem pressa porque sabe que o novo ciclo lançado pelo novo poder em Angola é de abertura ao exterior para lá dos velhos países irmãos e, por muito que esta visita seja um êxito (estão mais de 20 acordos na forja para serem assinados) é vital continuar a regar a cumplicidade afetiva que as relações históricas entre os dois países e respetivas comunidades civis tornam na maior vantagem bilateral.

A última visita de um Presidente angolano a Portugal foi há 10 anos e as relações foram muito marcadas de então para cá por um formato que o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, esta quarta-feira dizia ao Expresso estar “completamente obsoleto”. Porquê? Porque predominaram “duas formas de perceção”, a primeira de que tínhamos “o direito de examinar a evolução política e institucional de Angola”, e a segunda que nos levou sempre a olhar para aquele país como “um mercado para exportações, construção civil e obras públicas”. Santos Silva contrapõe uma nova fase.

Agora, que o “irritante” judicial em torno do processo que corria em Lisboa contra o ex-Presidente angolano Manuel Vicente está enterrado, o chefe da diplomacia portuguesa foca a conversa na oportunidade “vastíssima” que o novo ciclo angolano - de abertura ao exterior, privatização da economia, captação de investimento estrangeiro e formação acelerada de quadros (Lourenço assumiu em entrevista ao Expresso que conta com médicos e professores portugueses) - pode significar, se não for desperdiçada.

É nisso que Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Augusto Santos Silva, seis ministros setoriais e largas dezenas de empresários vão trabalhar durante os três dias da permanência de João Lourenço em Lisboa.

O programa, intenso, começa e acaba no palácio de Belém, onde o Presidente de Angola foi recebido na quinta-feira de manhã por Marcelo Rebelo de Sousa antes de uma curta declaração de ambos à imprensa, e termina no sábado ao almoço, quando ambos terão, então, uma conversa a sós.

O segundo dia da visita, sexta-feira, será dedicado à assinatura de cerca de 20 protocolos (quando o primeiro-ministro António Costa esteve em Luanda em setembro, ficaram alinhavados 11) nas mais diversas áreas, da agricultura à educação, passando pela cooperação marítima. E é no Porto que, após a reunião de Lourenço com o primeiro-ministro português e membros do respetivo Governo, decorrerá o Forum Económico para o qual já se inscreveram mais de 300 empresários e que funcionará como uma cimeira dos interesses bilaterais em matéria de investimento.

QUE PRESENÇA ANGOLANA NA ECONOMIA PORTUGUESA?

João Lourenço prepara a abertura de sectores vitais da economia angolana à iniciativa privada e é neste contexto que Portugal quer ver que posição relativa consegue segurar face aos contactos que o sucessor de José Eduardo dos Santos manteve no último ano, da China à Alemanha, passando por Espanha ou França. Até porque, como sublinham fontes oficiais em Lisboa, o Presidente de Angola foi cauteloso e delicado na entrevista que deu ao Expresso, mas não deixou dúvidas sobre a intenção de o Estado angolano sair da Galp e do BCP. Ou seja, o contencioso “irritante” está enterrado, mas Lourenço foi suficientemente vago sobre o que projeta em termos de presença angolana na economia portuguesa.

Jorge Coelho, que como homem forte dos contactos internacionais da Mota Engil conheceu bem de perto a realidade angolana e que aceitou lançar em Lisboa, na próxima terça-feira, o livro “Notícias do Palácio”, do jornalista angolano Luís Fernando sobre João Lourenço, reconhece o desafio. “Todos vamos ter que nos adaptar a este novo ciclo”, afirmou Coelho ao Expresso, convicto de que “Portugal não ficou para trás”, embora “Angola tenha um potencial de crescimento que não pode continuar a contar só com uma economia pequena como a portuguesa” e os dois países vão ter que se habituar a relacionar-se “num mundo muito mais aberto e diversificado”. “Há uma coisa que mais ninguém tem”, acrescenta Jorge Coelho, “é a língua. E isso é uma mais valia extraordinária”. Por isso, Coelho acredita que cativar os laços preferenciais é essencial: “Esta visita é muito importante e a que o Presidente Marcelo fará a Angola brevemente é importantíssima”, afirma.

DISCURSO “RARO” NO PARLAMENTO, COM MARCELO A OUVIR

O programa mais político da visita é foi na quinta-feira e tem direito a uma honra especial, que a história diz só estar reservado aos amigos também especiais. João Lourenço visitou a Assembleia da República, onde será recebido pelo Presidente Ferro Rodrigues e fez um discurso perante os deputados, na presença do Governo e do Presidente português, que estará lá a ouvi-lo.

Até agora, tiveram direito a esta distinção o rei Juan Carlos de Espanha, o Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso mas também Lula da Silva, e os Presidentes Joaquim Chissano, de Moçambique, e Ramos Horta, de Timor.

Depois da manhã no Palácio de Belém, com uma visita ao túmulo de Camões nos Jerónimos e um eventual passeio a pé com Marcelo entre um ponto e outro, e depois de ter discursado à tarde no Parlamento, João Lourenço deslocou-se à câmara de Lisboa para receber as chaves da cidade das mãos de Fernando Medina. Daí seguiu para o Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária, na companhia do ministro da Agricultura. O setor agro-pecuário está na mira dos investidores portugueses.

MARCELO QUERIA MAS HÁ POUCA RUA

Ao contrário do que chegou a ser pensado por Marcelo Rebelo de Sousa, a visita de João Lourenço não tem previsto nenhum contacto de rua muito informal. Eventualmente, uma passeata a pé do Palácio de Belém até aos Jerónimos, quem sabe se com direito a um pastel de Belém. O resto ficará para o primeiro-ministro que, no Porto, na sexta-feira, acompanhará o PR angolano.

O programa oficial apenas prevê um encontro com a comunidade angolana em Portugal num hotel da Invicta. Informalmente, fontes ligadas à preparação da visita admitem que possa ocorrer algum “saltinho” à rua.

No sábado, João Lourenço fecha, então, a visita a Portugal com o tête-a-tête ao almoço com Marcelo em Belém. E falará a vários orgãos de comunicação social portugueses. A visita do PR português a Angola poderá ser anunciada. Março, apurou o Expresso, é o mês na calha.

Fonte: Expresso.pt

 

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