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Sexta-feira 17 de Agosto de 2018  
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Edmundo Pedro: "No Tarrafal aprendi três línguas, matemáticas superiores, física e química", falando também sobre a sua prisão 1978 devido às armas entregues por Eanes em Novembro de 1975 para o PS

02-02-2018 - Carlos Gonçalo Morais

O dirigente histórico do PS morreu aos 99 anos e deixou um legado de luta pela democracia. Recorde a entrevista de vida que a SÁBADO publicou em 2010, quando Edmundo Pedro recuperava de uma septicemia.

Ainda debilitado por uma septicemia que quase lhe tirou a vida há poucos meses, Edmundo Pedro recebeu a SÁBADO nas termas de São Pedro do Sul. Com 91 anos, o antigo militante do PCP, fundador e dirigente socialista conserva uma memória exacta sobre datas, factos e personagens. Durante quase três horas e meia, o resistente antifascista recordou os anos de prisão – em especial no Tarrafal–, a ruptura com Cunhal e a adesão ao PS pela mão de Soares. Contou ainda, pela primeira vez, o envolvimento de Manuel Alegre na história de tráfico de armas que o levou à prisão já depois do 25 de Abril. Sempre ao seu lado, esteve a mais nova das suas filhas gémeas, que o acompanha permanentemente – e a quem ele chama, com afecto, a sua "secretária".

Cresceu numa família de resistentes à ditadura.

O meu contexto familiar tem duas vertentes totalmente diferentes: uma conservadora, de uma tia que me educou entre os 6 e os 15 anos; a outra, diferente, do meu pai, que foi deportado. Portanto, dentro daquele outro contexto conservador, a minha revolta foi vindo ao de cima.

E a sua mãe?  
Éramos três irmãos mas, por causa das dificuldades económicas, nenhum estava com a nossa mãe, que também esteve presa por ser antifascista.

E como começou o seu envolvimento com o Partido Comunista Português?  
Acabei a instrução primária aos 10 anos e frequentei dois anos na Escola Industrial Machado de Castro. Depois, as dificuldades da minha tia obrigaram-me a ir trabalhar. Empreguei-me numa serralharia civil na Rua do Salitre e nessa oficina conheci um indivíduo do PCP que me deu panfletos do partido. Comecei a tomar consciência da política. Aos 13 anos, tive a sorte de entrar na oficina do Arsenal da Marinha, que era altamente motivadora em termos políticos. Lá conheci o Pavel [dirigente comunista histórico] e, sobretudo,uma pessoa que foi determinante na minha vida: o Bento Gonçalves, que já era secretário-geral do PCP. Foi nessa altura que entrei no partido.  

Contou à sua tia?  
Não, mas ela desconfiava. Aliás, fugi de casa aos 15 anos. De vez em quando levava para casa carradas de panfletos, escondia-os na cama, etc.. Um dia ela encontrou um maço deles e queria obrigar-me a dizer a quem se destinavam. Só tive tempo de me despedir da Hermínia, a empregada lá de casa, uma rapariga invulgarmente bonita que eu namorava. A minha aspiração era juntar-me aos meus pais, que entretanto já tinham fugido para Lisboa, onde estavam na clandestinidade. Escapei então para a sede do PCP, da qual os meus pais eram os responsáveis.  

Quando foi preso pela primeira vez?
Com 15 anos, na véspera da greve geral de 18 de Janeiro de 1934. Curiosamente mandaram-me para o Governo Civil e fui posto no calabouço ao lado da minha mãe, que tinha sido presa uns meses antes e estava ali casualmente, já que fora transferida das Mónicas para lhe ser feita uma acareação com outra detida. Mais tarde também prenderam o meu pai. Fiquei com ele, em baixo, num calabouço, e a minha mãe em cima. Todos por processos diferentes. Comunicávamos por mensagens escritas através de um respirador.  

Quanto tempo esteve preso no Aljube e em Peniche?
Um ano. Logo a seguir, conheci o Álvaro Cunhal e fui eleito com ele e mais alguns militantes para a direcção da Juventude Comunista. Cerca de um ano depois fui preso outra vez, por ser dirigente comunista, e no fim desse ano, 1936, fui deportado para o Tarrafal, em Cabo Verde, sem julgamento.  

Dos 15 aos 27 anos esteve quase sempre preso. Como é estar preso tão novo e tanto tempo?
Apanhou-me no período que devia ser o mais belo da vida, mas aos 15 anos está-se no máximo ardor revolucionário. Aquilo para mim era uma grande aventura, tinha um moral elevadíssimo. Posso dizer que o Aljube e Peniche eram o ensino secundário e a universidade era o Tarrafal. Na prisão organizávamos cursos em função da capacidade dos que estavam presos.  

Como preenchia o dia na prisão?  
No Tarrafal aprendi o essencial do que sei hoje. Chegámos a ter uma biblioteca. Os livros políticos estavam em esconderijos que eles nunca descobriam. Aprendi três línguas para além da minha (francês, inglês e alemão) e também matemáticas superiores, físicae química, com o Bento Gonçalves. Tive a sorte de encontrar dois alemães e eles ensinaram-me a tonalidade da língua. O fundamental da cultura que tenho veio do Tarrafal, não sou licenciado.  

Foi lá que aprendeu a pintar?  
Eu não aprendi a pintar... faço umas coisas. Aprendi a desenhar porque tenho o curso de desenho industrial, tive sempre muito jeito para desenho. Mas só pintei em Peniche e no Aljube.  

Nesse período não conheceu raparigas?  
Não, nada, nada. Imagine o que é o sofrimento, jovem...  

O seu pai também estava preso consigo no Tarrafal. O seu relacionamento com ele era o de pai e filho ou o de dois operacionais do PCP?  
Era as duas coisas. Havia entre nós uma profunda ligação, o meu pai tinha uma enorme preocupação comigo, nomeadamente quanto ao meu estado de espírito.  

O Tarrafal era uma prisão dura.  
Sim. E o meu pai foi o preso mais torturado do Tarrafal.  

Assistiu a alguma cena de tortura?  
Assisti à pior, quando tentámos fugir e fomos apanhados. Meteram-nos na frigideira e estivemos 70 dias lá. A frigideira era um cubo em cimento armado que tinha um tecto que não suavizava o calor. Não havia ali praticamente respiração. Estou convencido de que nalguns dias a temperatura chegava aos 50 graus. Estávamos sempre nus e passávamos lá dia e noite, depois de sermos terrivelmente espancados, de tal forma que mal nos conseguíamos deitar.

Nunca pensou em desistir?
Nunca, o que me desmoralizou foi o castigo.  

Que castigo?  
Eu rompi com a disciplina do PCP quando tentei fugir da prisão sem autorização da direcção. Naquela altura a direcção comunista não estava a organizar fugas nem permitia que outros organizassem. Tinha chegado aos 23 anos, estava preso desde os 15, e pensei: "Não posso estar mais aqui." Estive suspenso do partido durante dois anos e a maior parte dos militantes na prisão deixou de me falar. Foi a minha primeira grande desilusão e contribuiu grandemente para que depois saísse do partido.  

Aí entrou em ruptura definitiva com Cunhal.Quando é que se voltaram a ver?  
Em Maputo, em 1976, no III congresso da Frelimo. Eu representava o PS e ele o PCP. O Cunhal tomou a iniciativa, chegou ao pé de mim e disse: "Ó Edmundo Pedro, somos portugueses, estamos a milhares de quilómetros de distância e não nos falamos há tantos anos [desde1936]. Acho que não há razão nenhuma para que não nos falemos." Eu concordei e tivemos uma longa conversa amistosa.  

Saiu da prisão em 1945. Como organizou a vida?
Fiz um percurso profissional extraordinário para um rapaz que tinha acabado de sair da cadeia. Afirmei-me na vida de forma invulgar. O primeiro emprego foi na Base Naval do Montijo, como desenhador. Fiz revisão de provas no jornal A Bola e, com grande influência do meu amigo Cândido de Oliveira, entrei para correspondente de línguas da Federação Portuguesa de Futebol. Estive lá ano e meio. O meu trabalho era muito apreciado e até fui escolhido para acompanhar a selecção nacional a Paris e à Irlanda. Só depois é que eles vieram a saber quem eu era e que tinha estado preso no Tarrafal. Pensei que a minha vida na federação iria ficar muito dificultada e pouco tempo depois despedi-me.

Já fora do PCP, como era a sua actividade política?
Nunca deixei de frequentar os círculos da oposição. Estive envolvido com o 12 de Março de 1959 e tomei parte activa no "golpe de Beja", tendo sido preso pela terceira vez.  

Mas dava dinheiro ao partido?  
Não, não.  

As pessoas do PC viraram-lhe a cara quando saiu?  
Não, a maioria não.  

Como conheceu a sua mulher?  
A minha primeira mulher foi em 1945. Vinha com intenção de casar com a minha prima, que se correspondia comigo quando estava no Tarrafal, mas regressei a casa da minha tia tuberculoso, sem emprego e, principalmente, com a fama de comunista. A minha tia disse a várias pessoas que eu nem pensasse em casar com a minha prima e eu, que lhe tinha grande respeito, acabei por nunca me declarar. Mas a minha prima gostava de mim e eu gostava dela. Até que um dia fui com o meu pai a casa de um compadre dele e conheci a filha dele. E aquilo foi lume e azeite. Tive duas filhas gémeas desse primeiro casamento. Voltei a casar mais tarde com a minha actual mulher, com quem tive uma terceira filha.

Depois de Beja, quando saiu da prisão, também sofreu consequências na sua vida profissional?
Arranjei vários empregos,mas fui corrido de dois por descobrirem quem eu era. Mais tarde fui co-proprietário de uma empresa de ponta dedicada à electrónica que, quando se deu o 25 de Abril, tinha atingido um desenvolvimento fabuloso. Abdiquei de tudo quando se deu a revolução – achava que negócios e política não deviam estar misturados.  

Porque é que aderiu ao PS em 1973?  
Tive um primeiro choque quando vi o que o exército soviético fez na Hungria. Depois, compreendi tudo na altura da invasão da Checoslováquia, em 1968. Cortei radicalmente e a partir daí percebi que a democracia política era essencial. Uns meses antes da revolução encontreio Mário Soares no aeroporto de Barajas e ele disse-me que ia haver uma mudança de regime dentro de pouco tempo. Contou-me também que, após essa mudança, teríamos um PCP muito experiente que iria tentar desviar a revolução da democracia para um curso totalitário. "Precisamos de fazer um Partido Socialista forte rapidamente. Podemos contar consigo?" Respondi-lhe: "Claro que pode contar comigo. Considere me desde já membro do PS."

O que é que separa Mário Soares e Álvaro Cunhal?  
São duas pessoas completamente diferentes. Soares é um homem aberto às ideias, com um sentido crítico muito agudo. O Cunhal era um sectário, fechado na ideologia. Nos últimos tempos, tenho grandes dúvidas se ele não percebeu o que é que se estava a passar.  

Quem era mais fiel a um amigo, Soares ou Cunhal?  
Mais fiel a um amigo era o Mário Soares. O Cunhal foi sempre muito reflectido, muito cerebral e político nas suas relações.

Foi preso uma quarta vez, em 1978, quando presidia ao Conselho de Administração da RTP.  
I0sso é uma grande história. Devo começar pelo Verão de 1975, que foi quando o Ramalho Eanes, então tenente-coronel, acompanhado por um major, esteve em minha casa, na minha presença e do Manuel Alegre (como representantes do PS). Durante essa reunião, Ramalho Eanes tentou saber quantas pessoas é que nós tínhamos na estrutura de segurançad o PS. O responsável pela estrutura de segurança do partido era o Manuel Alegre e eu era o organizador, o executor. Adiantámos o número,150 pessoas, e Ramalho Eanes prometeu entregar 150 armas ao PS no caso de estar iminente um confronto com a extrema-esquerda. Além disso, entregou-me um plano operacional designando as tarefas que caberiam à estrutura de segurança do PS na sua relação com a ala democrática do Movimento das Forças Armadas, para defender a liberdade dos portugueses prometida pela Revolução de Abril.  

A altura da entrega das armas surgiu, justamente, no 25 de Novembro.  
Nesse dia, tive a indicação do Manuel Alegre para ir receber a Cascais as 150 armas. Assim fiz, tendo ido buscá-las a uma vivenda em Bicesse.

Chegaram a ser usadas?  
Não, felizmente não foram necessárias. Os oficiais que nos deram as armas fizeram questão de nos pedir, com bastante insistência, que não as devolvêssemos. Por isso,umas ficaram logo em Cascais, outras em Oeiras, algumas na sede do partido e o resto em São Pedro de Alcântara.  

O assunto das armas voltou à ribalta quando?  
Cerca de dois anos depois. Pouco tempo antes de eu ir para a televisão, recebi do Manuel Alegre o pedido para me encarregar de localizar as armas e devolvê-las à tropa. O Ramalho Eanes tinha-lhe pedido isso. Localizei e devolvi várias armas, perto de 70% do total. Entretanto, fui para presidente da RTP e, evidentemente, fiquei com muito menos tempo para completar a tarefa. Até podia negar-me a ter continuado, mas considerava que era importante devolver as armas aos militares.
Parte das que restava entregar estavam na sede da FAUL [Federação da Área Urbana de Lisboa]. Os dirigentes daquela estrutura estavam cheios de medo – seria um escândalo político para o PS ter na sede dezenas de armas – e pediram-me que as tirasse dali. Lembrei-me de as levar para um antigo armazém desocupado da firma onde trabalhava a minha sobrinha. Um dia, ela telefonou-me a dizer que estava a guarda fiscal na sede da empresa com um mandato de busca passado por um juiz. Fui logo ao armazém, que era em Almada, para retirar o caixote com as armas, mas estava tudo preparado: eles estavam atrás do muro e interceptaram a carrinha. Quero sublinhar que não estava na furgoneta, tinha o meu automóvel à porta do armazém, dispunha de mais duas saídas e, se quisesse, podia ter fugido dali sem ser incomodado, mas assumi voluntariamente a responsabilidade da posse das armas.  

Foi preso. Nem Ramalho Eanes nem Manuel Alegre esclareceram o sucedido?  
Não. Estive preso quase seis meses a título preventivo. Teria saído imediatamente após a minha detenção se tivessem explicado o que me pediram.

Sente-se traído por Eanes e Alegre?   Há duas pessoas responsáveis pela minha situação: antes de mais nada, Manuel Alegre. Em segundo lugar, Eanes.  

Porque é que destaca mais a culpa de Alegre?  
Porque ele era o responsável por aquele sector no PS. Tudo o que fiz – menos a minha decisão de ir a Almada naquela manhã – era do seu conhecimento. Ele sabia que as diligências estavam relacionadas com a devolução das armas, porque tinha sido pedida por ele. Devia ter dito que a estrutura de segurança do PS recebeu as 150 armas no 25 de Novembro para defender a liberdade dos portugueses e, portanto, que a minha prisão era uma monstruosidade.  

Considera-se traído por ele?  
Não gosto de usar definições simplistas. O que eu acho é que ele demonstrou uma enorme fraqueza de carácter. A sua atitude mostra que nunca pensou em solidarizar-se comigo, em defender-me.  

Porque é que só agora, 30 anos depois, conta toda a história e se incompatibiliza com Manuel Alegre?  
Porque houve um artigo no jornal i que voltou à carga com as mesmas acusações. Eu e a minha família ficámos revoltados com aquilo e pedi ao Manuel Alegre que esclarecesse tudo. Ele nada fez.  

É por isso que não o apoia nas presidenciais?
 
Claro. Mas também há razões políticas de peso. Ele não tem perfil para ser Presidente da República. Nos momentos de perigo, hesita e é capaz de tomar posições pouco dignas.  

Porqueéqueoapoiou nasúltimaspresidenciais?  
Porque era amigo dele.

Como é que hoje ocupa o seu tempo?  
Fundamentalmente, a escrever. Às vezes exagero até no tempo em que estou no computador: umas cinco horas por dia. Leio, gosto muito de conservar as línguas que conheço e tenho sempre um livro de alemão à cabeceira. Agora estou a ler o  Guerra e Paz . E faço por andar todos os dias meia hora, embora agora, por causa da septicemia que tive recentemente, esteja um bocado debilitado.  

Usa a Internet?
Sim,essencialmente para ver o email. Vou ao Google, vejo as notícias.  

Tem portátil?  
Tenho um portátil e dois fixos. E aqui para São Pedro do Sul trouxe a  pen , para poder adiantar o meu livro.

Quem elegeria como a figura portuguesa do século XX?  
Mário Soares. Foi a visão dele que impediu que Portugal conhecesse uma experiência de governação de extrema-esquerda.  

Quem pode ser um bom líder do futuro para o PS?  
Inclinar-me-ia para o António José Seguro, mas não sei se chega lá, é capaz de não ter força para isso. E há o António Costa, que está à espreita. 


Artigo publicado originalmente na edição n.º 319 no dia 9 de Junho de 2010 da Revista Sábado.

 

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