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Almada. E do descontentamento nasceu a surpresa

06-10-2017 - Ana Sousa Dias

Surpreendido com o resultado das eleições? Apenas Lúcia, 68 anos, responde que não, logo ela que nem sequer sabia que o Partido Socialista, com Inês de Medeiros à frente, tinha ganho a câmara que a CDU mantinha há 41 anos

O metro de superfície atravessa constantemente a Avenida Nuno Álvares Pereira, dividindo ao meio a sede do concelho, e poucas pessoas arriscam andar no calor da rua. Passaram menos de doze horas desde a contagem dos votos e a cidade vive a normalidade do dia-a-dia em plena hora de trabalho. Tema de conversa (quase) obrigatório: a CDU perdeu para o PS, por 313 votos, a câmara a que presidiu desde 1976.

Vítor Soeiro está à porta da loja de fotografia que, "reformado no ativo", entregou ao filho. Pensa que a gestão do município tem sido boa, que "foi feito um trabalho muito grande", e afirma-se muito surpreendido com a votação. Explica a mudança: "Na minha opinião de cidadão e de eleitor, foi o problema da geringonça. Com a geringonça, ficámos todos a ganhar, mas esperávamos que em termos eleitorais a esquerda ganhasse também. Se isto continuar assim, o PS vai sair ainda mais beneficiado." Mas ao nível municipal acha que a nova gestão PS "não será muito diferente porque as coisas seguem o rumo que têm de seguir e as promessas eleitorais não são concretizáveis".

Em oposição, Joaquim, que tal como Fernanda não quer dizer o apelido, acha que "mudar é bom, estimula o despique". Sobre a nova presidente acrescenta um cauteloso "vamos ver". Fernanda esperava que a equipa de Joaquim Judas perdesse a maioria absoluta, mas não que perdesse a câmara. E porquê? "Havia muitas pessoas descontentes com o estado da cidade, por causa da sujidade e deste metro de superfície que não é uma boa solução."

Dentro da sua pequena tabacaria, Hermenegildo Mendes, 74 anos, é um utilizador contente do metro porque mora no Laranjeiro e, graças ao novo transporte, deixou de usar o carro. Defende que se o comércio de Almada foi prejudicado isso deve-se à existência do Almada Forum, inaugurado há 15 anos. Não votou no partido vencedor, ou antes, desta vez não votou mesmo: "Não escolhi estes mas nos outros também não quis votar, não gostei deste último mandato." Diz que a crise não afetou a Câmara, "que é rica, não foi por falta de dinheiro que não fez mais". Como o fotógrafo, ele acha que "se a geringonça continuar a CDU vai mais abaixo e o PS ainda ganha mais". E avança: "É fácil perceber a minha posição, não acha?". É mais fácil perceber porque acrescenta: "A Maria Emília ganhava isto com uma perna às costas."

Maria Emília Sousa, CDU, foi presidente da Câmara Municipal de Almada desde 1987 e até às eleições de 2013. Começou por substituir o anterior presidente, José Vieira, eleito consecutivamente desde 1976 com maioria absoluta (entre os 42,6% e os 49,5%), que abandonou as funções a meio do quarto mandato. Em 1989, conseguiu 39,1% e uma maioria simples, mas nas duas eleições seguintes ultrapassou os 45%. Em 2001 e 2005, descendo ligeiramente a percentagem, manteve a maioria absoluta que veio a perder em 2009, quando passou para os 38,76%. Quatro anos depois, Joaquim Judas teve mais um por cento e recuperou a maioria absoluta. Inês de Medeiros ganhou com 31,25%.

É disto que fala Paula, 25 anos, que tira os headphones para responder: "O resultado de ontem foi a melhor coisa que podia ter acontecido, nunca pensei ver isto. Já estava à espera há muito tempo". Lúcia, 68 anos, saiu de casa para ir comprar o jornal, não sabia da vitória do PS. "Não me espanta, as pessoas estavam descontentes." Nascida em Castelo Branco, acha que Almada, onde vive há 52 anos, é "muito pobre".

Joaquim e Alice Farias estão na avenida principal, a tal que deixou de ter trânsito cerrado desde que, há dez anos, passou a ser a pista do Metro Sul do Tejo. Engenheiro e professora reformados, estão ambos surpreendidos com a votação. Mas Alice acrescen-ta: "No fundo ainda estaria mais surpreendida se o resultado não fosse este, porque Almada está uma cidade suja, com lixo, com as ruas cheias de ervas, as paredes todas escritas."

Responsabilizam assim as sucessivas gestões CDU pela degradação do concelho. Joaquim: "Almada é uma cidade bem situada, tinha todas as condições para melhorar, mas as indústrias foram destruídas e não foram criadas alternativas." E fala de "obras faraónicas": "O metro de superfície, que é enorme, impôs grandes alterações e não passa por pontos importantes como a estação do Pragal ou o Hospital de Almada. Devia ter sido uma obra mais pequena e mais rentável."

Das cinco freguesias do concelho, três votaram maioritariamente CDU - Almada/Cova da Piedade/Pragal/Cacilhas; Caparica/Trafaria; Laranjeiro/Feijó. Nas outras duas venceu o PS - Charneca de Caparica/Sobreda; Costa de Caparica.

Ângela, 43 anos, nasceu em Angola e vive na Costa de Caparica desde que, com 1 ano, veio com os pais para Portugal. Caparicana, gosta muito do presidente PS da junta de freguesia, José Ricardo Martins, reeleito com 50,94%: "Ele é um homem do povo e fez grandes coisas, esforçou-se muito." Já sobre a mudança na câmara, diz que foi "um acaso", dada a pequena diferença de votos, mas já estava à espera porque "as pessoas não gostam da gestão atual".

Na praia, muitos são os que - portugueses e estrangeiros - aproveitam o sol quente de outubro.

Fonte: DN

 

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