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Devastação em Palma também atinge estrangeiros. "Finalmente o mundo começa a dar atenção a Cabo Delgado"

02-04-2021 - Cristina Lai Men e Catarina Maldonado Vasconcelos

Palma é neste momento uma vila isolada e deserta, de onde até os gritos de desespero demoram a fazer-se ouvir. A comunicação está cortada, mas os focos de fumo, espalhados pelo território, comunicam a devastação. A vila no Norte de Moçambique foi sobrevoada por helicópteros e é esta a paisagem que a investigadora Zenaida Machado, da organização Human Rights Watch nos territórios de Angola e Moçambique, descreve, em entrevista à TSF.

"Alguns jornalistas tiveram oportunidade de sobrevoar Palma e contam-nos que a cidade está completamente deserta", começa por dizer a representante do grupo ativista, que dá ainda conta de "focos esporádicos de tiros, que provavelmente são dos grupos armados a tentarem afugentar os soldados, ou então dos soldados a repelirem-nos".

Há ainda "fumo e incêndio, o que é também prática, porque este grupo opera a incendiar propriedade alheia", apressa-se a explicar Zenaida Machado.

As autoridades locais não arriscaram ainda um número para o total de deslocados provocado pelo ataque de dia 24 a Palma, sede de um distrito com 62 mil habitantes - e onde outros ataques nos meses anteriores, como em Pundanhar e Quionga, já tinham colocado residentes em fuga. O movimento terrorista Estado Islâmico reivindicou na segunda-feira o controlo da vila de Palma.

Zenaida Machado admite o medo, alimentado pela incerteza e pela falta de informação. "O facto de a vila estar deserta é uma preocupação para nós, porque o que isso significa é que muita gente morreu, mas muita gente está desaparecida, nesta fase."

O mundo a olhar de frente para Cabo Delgado

A responsável local da Human Rights Watch acredita que o número de mortos em Palma pode ser maior do que o que tem sido noticiado. Cabo Delgado, lembra, é uma província onde já morreram 1500 pessoas em ataques armados deste tipo, mas só agora a comunidade internacional está a dar-se conta da extensão do problema, depois de o ataque a Palma ter virado "as atenções do mundo para a dor e para o sofrimento dos moçambicanos, e não só, que estão em Cabo Delgado, principalmente nos distritos que estão a ser afetados por este conflito".

O porta-voz do Pentágono assegurou, nas últimas horas, que os Estados Unidos da América vão ajudar na luta contra o Daesh em Moçambique. John Kirby garantiu que a Casa Branca está determinada em apoiar o Governo de Maputo no combate aos insurgentes em Cabo Delgado. "Condenamos os ataques terroristas na vila de Palma, na província de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique. Os ataques demonstram uma total falta de respeito pelo bem-estar e segurança da população local, que sofre terrivelmente com os terroristas."

O responsável norte-americano assegura que os EUA estão agora "determinados a cooperar com o Governo de Moçambique no contraterrorismo e no combate ao extremismo violento e a derrotar o ISIS em Moçambique".

"Finalmente o mundo começa a dar atenção ao que se está a passar em Cabo Delgado", vaticina Zenaida Machado. Mas "o ataque de Palma não é muito diferente daquilo que nós temos visto nos últimos anos", descreve a ativista, estabelecendo um paralelismo com Mocímboa da Praia. "É provavelmente similar ao primeiro ataque, em outubro de 2017." Também nessa altura, as autoridades e as organizações humanitárias ficaram "muito tempo sem informação do que se estaria a passar na cidade".

Um possível ponto de viragem

Zenaida Machado garante que "os abusos, a falta de respeito pela dignidade humana, a falta de apoio à população por parte das forças de segurança e a barbaridade do grupo localmente conhecido por Al-Shabaab são práticas comuns". Também a "grande ansiedade" vivida e gerada pela falta de comunicação não é novidade. O que há de novo nestes ataques em Palma é terem sido "atingidos, pela primeira vez, estrangeiros".

Este pode ser um ponto de viragem precisamente por implicar de forma mais direta a comunidade internacional. Outros países despertaram para o sofrimento infligido no território moçambicano a populações desprotegidas, mas a responsável da Human Rights Watch não se tranquiliza. Pode haver centenas de pessoas em fuga neste momento, sustenta. "Estar desaparecido no mato é um perigo enorme, porque nós temos evidências de que, noutros ataques, as pessoas que se esconderam no mato, ou fugiram para o mato, também encontraram outros perigos no caminho, nomeadamente encontraram os insurgentes, que muitas vezes raptam crianças e mulheres."

O grupo armado "decapita civis", mas, de acordo com Zenaida Machado, "há também casos, lamentavelmente, em que os civis se encontram com forças de segurança que os confundem com o grupo armado e cometem sérios abusos contra eles". São encontros que resultam por vezes em "tortura, e, nalguns casos, execuções sumárias".

"O povo clama por socorro"

"Pedimos socorro para alimentação desta gente que está a sofrer, depois dos ataques em Palma." É com este apelo que a diocese de Pemba se dirige à comunidade internacional. Em declarações à TSF, o padre Kwiriwi Fonseca lembra que é necessária ajuda urgente para garantir a alimentação às perto de mil pessoas que chegaram a Pemba, capital da província de Cabo Delgado, fugidas de Palma.

A diocese local lançou um alerta numa mensagem gravada, na qual discorre sobre os testemunhos recolhidos junto de alguns dos mais de mil fugitivos que chegaram à cidade numa embarcação no último domingo.

"Muita gente está à deriva, muita gente está nas matas, muita gente precisa de alimentação", sublinha o padre Kwiriwi Fonseca. O clérigo conta que há mesmo pessoas "que estão há quatro dias sem conseguir comer", e lança um último apelo: "O mais importante é salvar vidas."

Fonte: TSF.pt

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