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Evolução da pandemia. Centros de saúde começam a desmarcar doentes não urgentes

13-11-2020 - Ana Mafalda Inácio

É nos cuidados primários que mais de 90% dos doentes com covid são acompanhados, primeiro por médicos de saúde pública e depois por médicos de família. Há muito que uns e outros reivindicam mais meios humanos e técnicos para responder aos doentes e controlar a pandemia. Há dois meses, os médicos de família pediram uma audiência à ministra. Hoje, dizem que tudo está igual. Não há mais médicos, enfermeiros, administrativos e nem telefones. E já há "unidades de saúde e colegas que começam a desmarcar doentes não urgentes e a ter de deixar de ter outras atividades de rastreio".

Há dois meses, o presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Nogueira, pediu uma audiência urgente à ministra da Saúde para alertar para a falta de recursos humanos e técnicos por forma a continuarem a dar resposta à pandemia e perante uma segunda vaga que se avizinhava. Hoje, diz que a situação está muito pior e que o que não se queria fazer "é inevitável", para se dar resposta "à evolução rápida que a pandemia está a ter". E a situação ainda pode agravar-se mais.

O médico diz que neste momento "há unidades de saúde que já estão a adiar doentes e médicos que estão a deixar de fazer o que têm de fazer no acompanhamento de doentes para dar resposta à pandemia e até a deixar ir de férias". Confessando: "Eu próprio hoje já tive de desmarcar doentes e férias que tinha na próxima semana, em outubro fiz o mesmo." E reforça: "Imagine o que é termos 77 mil casos ativos por dia. O número mais alto que tivemos em abril, quando estávamos fechados em casa, foi da ordem dos 20 mil, e mais de 95% destes doentes são acompanhados pelos cuidados primários em casa, pelos médicos de família que têm de ligar diariamente para todos os doentes." Às vezes, não é possível, porque, alega, "o dia não tem mais de 24 horas, eu bem gostaria".

Para o presidente da APMGF é difícil perceber o atraso em resolver as necessidades de recursos e de meios nos centros de saúde. "Vivemos uma pandemia, estamos de novo em estado de emergência, não é aceitável que o procedimento burocrático para a contratação de médicos continue a ser o mesmo e com a mesma morosidade: o pedido de substituição de médico segue da unidade de saúde para o agrupamento, deste para a ARS e depois ainda para o ministério. O tempo que tudo isto leva é inacreditável."

Rui Nogueira diz mesmo que dois meses depois do alerta feito pela associação à tutela, aos centros de saúde ainda não chegaram mais médicos, enfermeiros, administrativos, nem tão-pouco "nenhum dos 30 mil telefones prometidos; pelo menos que eu tenha conhecimento, ainda não chegou nada", quando, perante a situação que estamos a viver, "em que a doença está a evoluir rapidamente", tais situações, consideradas básicas e fundamentais, já deveriam estar resolvidas".

O clínico refere-se também à falta de médicos agravada com o número de clínicos que se reformaram durante a pandemia e que não foram substituídos, aos 70 médicos que recentemente fizeram exame da especialidade e que ainda não foi lançado concurso para os colocar: "São só 70 médicos, mas hoje todos fazem falta", sublinha. Não só os médicos, como todas as outras classes profissionais.

Médicos reformados ainda não foram substituídos

Segundo a associação indicava em setembro, nas mais de 900 unidades de saúde dos cuidados primários faziam falta mil médicos, 900 enfermeiros e 900 administrativos. "E o que muita gente não percebe, sustenta Rui Nogueira, é que nós somos a linha da frente no controlo da doença", sublinha.

Ou seja, são o setor a montante dos cuidados hospitalares onde se pode travar a propagação da doença, e onde "o investimento ainda não aconteceu". Em outubro, Rui Nogueira referia ao DN que "o Governo investiu em ventiladores e nos cuidados intensivos, mas esqueceu-se de investir em telefones para os centros de saúde e em pessoal".

Hoje, volta a dizer que "estamos à beira do abismo, de uma catástrofe", perante os cenários traçados pelos epidemiologistas para as próximas semanas, já que se estima que Portugal possa atingir os dez mil casos e cem mortes por dia se não conseguirmos achatar a curva de evolução da pandemia.

"Na minha unidade de saúde, hoje, havia 51 doentes para contactar, eu tinha mais de dez, além de outras atividades. Só os telefonemas a dez doentes levam mais de duas horas de trabalho. Há dias, e quando a maioria são casos novos, que se leva mais do que as duas horas. Depois há que telefonar a todos os outros casos que continuam ativos todos os dias", explica.

O médico sublinha que o despacho que veio permitir a passagem da alta clínica para a Linha SNS24 veio aliviar um pouco as funções dos médicos de família, mas que há muitas mais tarefas que deveriam ser atenuadas.

Por exemplo, "acabar com a obrigatoriedade se ter de ligar a um doente que está em casa quase sem sintomas todos os dias. Deveria haver a possibilidade de o doente informar o médico se a sua situação se alterasse, mas continuando com os mesmos sintomas e alguns assintomáticos, não deveria ser necessário este contacto telefónico diário. Poderia haver o compromisso para um contacto de três em três dias", defende.

A questão é que, e há quem ainda não tenha percebido, "o primeiro contacto com um doente que teste positivo, saber como ele está, dar-lhe a indicação de como deve cumprir o isolamento, é que é fundamental. Neste contacto é que não pode haver atrasos, porque há muitas pessoas que ainda não perceberam que o estar em isolamento em casa é estar mesmo isolado, sobretudo quando há mais familiares. Há quem ainda não tenha percebido que não pode circular pela casa, que não pode fazer em comum, etc. Temos de explicar isto quase diariamente", justifica.

"Se já era difícil com dois mil casos, com três e quatro mil é muito mais"

Se esta função já era difícil com dois mil casos por dia, com três e quatro mil ainda é mais. "A nossa capacidade de resposta acima dos dois mil casos por dia está muito comprometida. Não sei do que se está à espera para se tomar decisões", comenta.

A situação complica-se ainda mais quando no seu dia-a-dia os médicos têm de se dividir entre doentes com covid e não covid e o registo de dados em plataformas. "Temos de registar todos os casos testados numa base de dados que é o SINAVE - um sistema de notificação obrigatória para doenças infetocontagiosas. E depois os que são negativos têm de ser apagados pelos médicos de saúde pública. Isto não faz sentido", desabafa.

No dia em que Portugal registou 3817 novos casos, 62 mortes e que o total de casos está quase nos 200 mil (187 237), o médico ressalva que é uma boa notícia haver "mais de cem mil recuperados, mas que há uma mensagem que ainda não está a passar, e que é: "A única forma de travar a doença é o isolamento, isolamento, isolamento."​.

Neste momento, há 121 concelhos do país em estado de emergência, mais de sete milhões de pessoas a viver sob recolher obrigatório. É fundamental que cada um perceba que tem responsabilidades na propagação da doença, é preciso que os médicos de família continuem a ver doentes não covid, a rastrear tumores do cólon, da mama e outras doenças. ​​​​"É fundamental que as pessoas também entendam isto", refere o médico.

Fonte: DN.pt

 

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