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"Se tivermos um surto de cem casos em Faro ou Portimão vamos ter de fechar o Algarve"

19-06-2020 - Rita Rato Nunes

Para o presidente da Ordem dos Médicos do Sul, Alexandre Valentim Lourenço, o Algarve não tem recursos humanos suficientes para lidar com uma situação epidemiológica como a que está a acontecer na Grande Lisboa. Por isso, defende medidas rigorosas durante o verão, caso apareçam mais surtos como o de Lagos, que já contabiliza cerca de 40 infetados.

O Algarve tem sido uma das regiões do país com menos contágio de covid-19. Desde março que a zona resiste com 413 casos e 15 infetados, mas uma festa ilegal há dez dias, no Clube Desportivo de Odiáxere (Lagos), onde se registaram pelo menos 37 infetados, fez disparar as preocupações.

Com o verão à porta, o sul do país prepara-se para receber turistas estrangeiros e portugueses. Uma prova de fogo, segundo o presidente da Ordem dos Médicos do Sul, tendo em conta a falta de médicos crónica da região, que deverá ver-se agravada neste ano.

Em entrevista ao DN, Alexandre Valentim Lourenço diz não ter tido conhecimento de um reforço nos recursos humanos algarvios antes da pandemia e antevê decisões políticas difíceis: "Estamos numa fase em que a tomada de decisões para bem da saúde pública pode ser dolorosa para economia e para o turismo nacional."

Nos últimos dias, aumentaram as preocupações com a região do Algarve, perante o surto de Lagos. Prestes a entrar no verão, o que é que podemos retirar deste episódio?

A minha preocupação com a abertura de uma área turística está relacionada com o facto de as estruturas de saúde pública serem ou não capazes de lidar com os desafios para conter a infeção. Sabemos que, nos casos de covid-19, a possibilidade de rastrear os primeiros casos e depois de fazer o seguimento de todos os contactos com uma política de quarentena é essencial para que a infeção não alastre para além destes pequenos surtos. O que nós estamos a ver, por exemplo, em Lisboa são múltiplos pequenos surtos, que nos preocupam pela incapacidade de a estrutura fazer aquilo que deve no que respeita a saúde pública (acompanhar todos os contactos e ter uma política eficaz de quarentena). Mas, se isto é difícil em alguns bairros de Lisboa e em população jovem, transpor para o Algarve pode ser mais preocupante.

Porquê?

Porque as pessoas que vão para o Algarve no verão de férias têm comportamentos sociais completamente opostos aos de confinamento. O Algarve é conhecido pelas praias mas também pelos bares, pelas discotecas, pelo contacto social mais intenso de pessoas que não o tiveram durante um ano. E, neste ano, foi particularmente mau com os problemas da covid. Sendo certo que o Algarve não é, normalmente, um bom exemplo na resposta aos picos de sobrelotação no verão. Por isso, a nossa preocupação é dupla.

Além dos doentes de covid e não covid, há ainda aqueles que ficaram por atender durante a pandemia.

Nós [Ordem dos Médicos] estamos a dizer isso há dois meses. Os doentes que tinham cancro diagnosticado continuaram os tratamentos, por exemplo, mas não se fizeram novos diagnósticos e vão começar a aparecer esses doentes tardios.

No ano passado, falou-se muito na falta de obstetras, pediatras, anestesistas na região, e alguns destes serviços chegaram mesmo a encerrar temporariamente por falta de recursos humanos. Estas situações estão superadas? Como é que estão as escalas nos hospitais algarvios para o verão nestas especialidades?

E na ortopedia também. Nesta fase, não temos conhecimento sobre as escalas de julho e agosto. Estão a ser feitas agora. O que nós sabemos é que durante este ano não aumentaram os efetivos nos hospitais, por isso, a mesma dificuldade que havia no ano passado vai haver neste ano. O que nós esperamos é que haja uma dotação de meios suplementares - que nunca houve -, que haja uma organização diferente e que se aprenda com o que aconteceu no norte e agora em Lisboa [e Vale do Tejo], porque o que vai acontecer daqui a um mês no Algarve será muito semelhante.

O Ministério da Saúde já anunciou que a Administração Regional de Saúde do Sul ia ter mais vagas para médicos durante o verão.

Mas nos outros anos esse reforço foi feito, mas foi sempre provisório e agora está-se a pedir a médicos que saiam dos seus locais de trabalho três meses de forma instável, quando são precisos nos seus hospitais. Os médicos que vinham de Coimbra ou do Porto estão a tentar compensar o tempo em que não houve atividade programada. Neste momento, não são as mesmas medidas - que já se provaram insuficientes - que vão resolver o problema. São precisas novas medidas. Não chega comprar ventiladores. Nós gastámos muito dinheiro em ventiladores, mas esses ventiladores não vão funcionar sozinhos. Puseram-se 500 ventiladores no Algarve, mas se não houver médicos, estes não trabalham. E depois é preciso saber se vão ser tomadas medidas excecionais para interromper o turismo no Algarve no meio do verão. Como se viu agora em Pequim, com um surto de cem casos, eles fecharam novamente a capital da China. Se nós de repente tivermos um surto de cem casos em Faro ou em Portimão vamos ter de fechar o Algarve.

Considera que as autoridades estão a estudar medidas dessa natureza?

Há aqui um custo que é económico, há um custo de recursos humanos (que não existem) e há um custo político. Estamos numa fase em que a tomada de decisão para bem da saúde pública pode ser dolorosa para economia e para o turismo nacional. Temos um problema acrescido, porque a economia do Algarve é muito dependente dos meses de julho e agosto. E as decisões que possam ser tomadas para bem da saúde pública são decisões politicamente difíceis, que requerem muita coragem e que podem ser muito polémicas, mas não podemos arriscar ter um agravamento [da situação epidemiológica] no Algarve.

Preocupa-o a reabertura das fronteiras e a chegada dos turistas?

A Madeira, que também vive do turismo, não tem tido novos casos. Os Açores também não, embora a Madeira viva mais ainda do turismo. A Madeira e os Açores conseguiram fazer o que fizeram porque são ilhas e conseguem rastrear todas as entradas. Análises feitas previamente à entrada do avião, testes rápidos e períodos pequenos de quarentena são possíveis na Madeira e nos Açores. A abertura na fronteira do Algarve com Espanha não permite fazer isso e não é só o turismo vindo do estrangeiro de áreas com surtos que é preocupante. Neste momento, há surtos em Lisboa com um número de casos preocupante a nível europeu. E as pessoas que vêm da capital como é que são rastreadas?

Fonte: DN.pt

 

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